PAPAGAIO 50 – O Ator

Silêncio

E chovia fazendo muito barulho para quem se encontrava na rua, porém a calefação da casa não deixava transparecer a emoção do tempo, exceto pela queda lenta da temperatura do espaço. Quase fazia frio.

A cabeça ainda fervia, em contraste com o tempo. Cada um em seu tempo: o tempo, a cabeça, a chuva, o tempo…

O silêncio é quebrado pela convocação do telefone. Sempre o insistente telefone que você não sabe se atende e se arrepende, ou se teima em se arrepender por não ter atendido. E se for uma festa? E um amigo distante?

Era ela!!

– Alô
– Olá
– Tá fazendo o que?
– Na verdade, nada. Apenas ouvindo o tempo passar…
– e quando acabar?
– acabar o que?
– o tempo, oras.
– Ah! Este não acaba nunca.
– está muito ocupado?
– não. Quer algo? Pode falar.
– Não. Só queria alguém para papear. Tem ido ao cinema?
– não, nunca mais. Goddar, Truffeau, Almodóvar… os esqueci. E você?
– Também não. Na verdade estou compondo um filme…
– É?!?! Que fantástico!!! É sobre o que?
– na verdade não tem fita. É um filme de um personagem só. É o filme da minha vida.
– ah! Sem graça, você tá de piléria!
– não! E você será o protagonista!
– mas não é de um personagem só?
– sim. E você é a personagem da minha vida.
– mas, e você?
– Sem você? Ninguém.

SILÊNCIO

Desabou um trovão vindo muito além daquelas alturas e desarmou pontes de comunicação. Diálogo mudo. Filme sem continuísmo. Oscar falido.

A noite continua chuvosa e barulhenta. O quarto frio e silencioso. O telefone, mudo.

Ruy Vídero
Março.07

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