PAPAGAIO 02 – O cara e a coroa

O Homem é um ser político e como tal é dotado de herança cultural impregnada nos genes que o constitui. Toda sociedade constrói seus ícones que o tomam como parâmetros em busca de sua própria sobrevivência e perpetuação de sua cultura.

Na Bahia não podia ser diferente. Terra mística e primaz, pariu e criou seus mitos cujo reflexo é o que é seu tambor, seu tabuleiro, seu trejeito e sua pele. Desde o Boca Maldita, passando pelo Amado Jorge, pelo poeta dos escravos, pelos tropicalistas novos baianos e pelo Buda Negro entre outros enfim, cunhando a Boa Terra. E é sobre o Buda Negro, o patriarca Caymmi que adentro nesta prosa.

Caymmi gestou poucas e maravilhosas músicas. Caymmi gestou poucos e virtuosos filhos, e Nana, um deles, se tornou uma competente intérprete de nosso cancioneiro, não só as de seu pai. Porém andou desafinando em seu discurso. Explico: Nana declarou em televisão que não gostava de cantar em Salvador, de seu povo nem de sua cultura. Falou da falta de educação da Cidade da Bahia e da falta de hospitalidade de todos. Ora, por si só já foi um discurso politicamente incorreto sob qualquer aspecto. E ainda vem o coice depois da queda pois ela é filha de um Buda. Filha de um gene que ajudou a construir nosso mapa cultural genético. Ainda mais: ela é uma artista, vive do verbo e da imagem e por mais real que seja sua declaração, para o bem de sua arte, não deve ser exposta com tanta veemência, com tanta crueldade e amargura.

Mas é aí que aparece Nana! Recentemente foi ao ar uma novela na Globo onde alguns relatos reais eram enxertados nos seus textos e na sua imagem. Eram pessoas dependentes de drogas, ou os seus familiares que sofriam pelos seus. As pessoas não diziam seus nomes e nem mostravam seus rostos por inteiro por uma questão de ética e para não cair no folhetim, creio eu. De repente, em um dos capítulos aparece Nana de rosto inteiro, com o seguinte texto:

– “Sou Nana Caymmi, cantora, e quero falar sobre o meu filho que é usuário de drogas e nos causa muitos problemas (…)”.

Foi um impacto muito grande pois era uma pessoa pública que contava suas mazelas, suas dificuldades. Confesso que, também por ciúmes e bairrismo passei a desgostar de Nana até então, após suas referências sobre minha amada terra. Após este capítulo em questão comecei a vê-la como uma outra pessoa. Entendi sua amargura ao viver este problema. Entendi o seu gigantismo artístico com uma base familiar descendente tão sofrida e com uma antecedência tão gloriosa. De perto ninguém é normal.

Hoje vejo Nana como sempre deveria ser vista: uma excepcional intérprete que também é uma pessoa comum, pois todas as pessoas são comuns. O que as modificam são as cores dos holofotes que projetamos sobre elas.

Ruy Vídero

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