Silêncio
E chovia fazendo muito barulho para quem se encontrava na rua, porém a calefação da casa não deixava transparecer a emoção do tempo, exceto pela queda lenta da temperatura do espaço. Quase fazia frio.
A cabeça ainda fervia, em contraste com o tempo. Cada um em seu tempo: o tempo, a cabeça, a chuva, o tempo…
O silêncio é quebrado pela convocação do telefone. Sempre o insistente telefone que você não sabe se atende e se arrepende, ou se teima em se arrepender por não ter atendido. E se for uma festa? E um amigo distante?
Era ela!!
- Alô
- Olá
- Tá fazendo o que?
- Na verdade, nada. Apenas ouvindo o tempo passar…
- e quando acabar?
- acabar o que?
- o tempo, oras.
- Ah! Este não acaba nunca.
- está muito ocupado?
- não. Quer algo? Pode falar.
- Não. Só queria alguém para papear. Tem ido ao cinema?
- não, nunca mais. Goddar, Truffeau, Almodóvar… os esqueci. E você?
- Também não. Na verdade estou compondo um filme…
- É?!?! Que fantástico!!! É sobre o que?
- na verdade não tem fita. É um filme de um personagem só. É o filme da minha vida.
- ah! Sem graça, você tá de piléria!
- não! E você será o protagonista!
- mas não é de um personagem só?
- sim. E você é a personagem da minha vida.
- mas, e você?
- Sem você? Ninguém.
SILÊNCIO
Desabou um trovão vindo muito além daquelas alturas e desarmou pontes de comunicação. Diálogo mudo. Filme sem continuísmo. Oscar falido.
A noite continua chuvosa e barulhenta. O quarto frio e silencioso. O telefone, mudo.
Ruy Vídero
Março.07