Lá do alto dos seus cinco metros da sua estrutura concreta, aparece todo reluzente o trio-elétrico, com seus acordes repetitivos e ritmados, deixando todos loucos para estarem perto. Estamos falando do elevado supostamente erigido para permitir os passeios do metrô de Salvador. Doce quimera.
Mas é um local ótimo para se fazer um carnaval! Seria o nosso sambódromo baiano, o trio-eletricobódromo. Já pensaram num espaço de carnaval onde não empataria em absolutamente nada no trânsito ou na fluidez da cidade? Todos estariam nos elevados e a cidade correndo solta por baixo. Ocuparia os quatro quilômetros da avenida Bonocô, tendo a concentração dos blocos e dos trios na pretensa estação do largo do Abacaxi. Ali cabem todos. O cortejo seguiria em direção ao dique do Tororó, passando pelo túnel, e desembocaria na estação da Lapa onde todos os foliões pegariam seus ônibus e voltariam para as suas residências felizes da vida, pois tinham se divertido sem correr riscos. Teriam um transporte fácil e acesso seguro.
Naturalmente que teríamos alguns problemas. Por exemplo, o puxador do trio não poderia dizer a todo o momento o jargão “sai do chão”, sob o risco iminente de o folião efetivamente sair do chão e se despencar de lá de cima, posto que aquele chão não está propriamente no chão. Outro sério problema é o caminho de volta. Sim, não há caminho de volta. Então, se perdeu aquela namorada na confusão… vá pra Lapa, talvez ela pinte por lá algum tempo depois (se ela também não saiu do chão). O corteja segue em via única, já que a estrada é estreita.
Outro problema seria a distribuição de comidas e bebidas. Penso que só seria possível através de pequenos elevadores improvisados em barbantes, espalhado por todo o circuito, subindo e descendo o tempo todo, assistindo aos foliões e aos vendedores.
- Sobe uma latinha aí! Grita o folião.
- Jogue o dinheiro primeiro! Grita o vendedor.
Difícil é transportar acarajé e picolé. Mas o baiano é criativo.
O último e maior problema está no Palácio Tomé de Souza. O prefeito é cristão, e com certeza é contra esses devaneios despropositados. Pra que tanta festa? Alguém tem de convencer àquela casa que, sagrado ou profano, o baiano é carnaval.
Para a 1º Grande Tradicional Micatrô de Salvador (já repararam que em Salvador as coisas já nascem tradicionais?) traremos o nosso Presidente Lula para a abertura e para o palanque oficial, afinal sem ele nada disso existiria. Já pensaram se ele desiste de tudo, se reta e manda finalmente os trens para Salvador? Iria estragar toda uma expectativa de festa e de centenas de empregos diretos e indiretos. Os hotéis não teriam ocupação plena e as agências aéreas e de viagens sofreriam mais um golpe em seus orçamentos. A Varig então, coitada, que haveria de apostar todas as suas asas no evento, iria amargar mais um preju.
Como todo carnaval é temático, este teria como mote Mário Kértezs, afinal foi ele quem começou tudo isso (não a proposta de metrô, e sim a construção de sólidas vigas para se fazer o trio-eletricobódromo, lembram?). Ele é o grande nome para esta festa e o slogan e música tema seria “deixa o coração mandar”. Todas as bandas teriam de executar o hino ao passar pelo palanque oficial.
Finalmente, o item decoração. Não é o sonho de todo artista plástico ter uma moldura suspensa para expor suas idéias e sua arte? Assim, é a eminência da arte!
Folias de Momo.
Ruy Vídero
Maio.05

