PAPAGAIO 08 – Uma Viagem

(Baseada em fatos reais.)

O prazer era mútuo várias vezes, aliás muitas vezes pois eram várias pessoas com o mesmo objetivo: Viajar no São João!

Estava tudo planejado. Tinha uma no grupo que até se ajeitava no ramo de turismo. Coisa meio assim, profissional. O plano era perfeito: Uma pousadinha meio rústica, no meio do nada, na região da Chapada Diamantina, onde não havia nem luz elétrica. Que bucólico. Que emocionante.

A turma era de quarenta e cinco, entre adolescentes, crianças, jovens e adultos. Como a pousada só acomodava vinte, providenciou-se então uma casa no centro urbano do município, para os outros. Esta ganhou o oportuno nome de Big Brother. Vê-se logo que teria paredão, confecionário e afins. Era a casa dos adolescentes. A cidade de Piatã fica há uns 520 km de Salvador, decerto a viagem seria longa. A saída estava marcada para as seis da manhã com previsão de chegada em torno das quinze horas, com direito a city tour, licorzinho e amendoins. A empresa de turismo era séria, ou pelo menos nunca tinha decepcionado o contumaz grupo de viagem. Sempre com ônibus e pousadas confortáveis, com horários cumpridos e descontos honestos dos cheques.

Às seis da manhã, ou perto disto (prá lá e prá cá) estavam todos em torno do ônibus, se é que se poderia chamar aquilo de ônibus. Para se ter uma idéia, o veículo já vinha com um mecânico de plantão e o motorista era uma mistura de tartaruga ninja com pit bitoca!!! O que sobrou de o que fora um dia um painel, como referência só tinha alguns fios encaracolados e unidos por barbante e fita isolante. A pintura até que era bonitinha e a logomarca sugestiva, lembrava beleza: BelTur. Logo foi visto que esta belezura não iria tão longe assim. Aliás havia até uma enganadora carcaça de televisão no veículo. Em assembléia imposta decidiu-se ir até a garagem da empresa para escolher um novo veículo. Fomos. Que decepção… o nosso era o “melhor” ônibus dentre os demais. Em acerto telefônico ainda dentro da garagem, a líder da excursão, devidamente assessorada por um advogado que fortuitamente fazia parte do grupo, decidiu que faríamos uma baldeação logo após Feira de Santana onde trocaríamos o nosso veículo por um ônibus mais decente que teria ido para Amargosa e que seguiria viagem conosco. Ótimo. Resolvido.

Na nova saída rolou de tudo quanto foi tipo de comida dentro do buzu para o café da manhã, desde farofa de carne (Ôber) até aipim com carne do sol (Afra), passando por uns três quilos de bolo (Nádia), banana cozida (D. Cris) e café quente (D.Tânia). Ao fundo do ônibus tinham os Nerds. Um grupo de adolescentes parmalat que só faziam comer, dormir e se perturbarem uns aos outros. Os Nerds eram massa. Um deles, já lá na cidade, estava dormindo num saco de dormir, dentro da Big Brother, quando resolvi acordá-lo para tomar café. Ele olhou para mim e disse:

- Meu tio, eu sou uma borboleta saindo do meu casulo para bater asas.
- Você é um viado. Disse eu. Mas era um nerd. E um Nerd adolescente, o que é pior.

E o ônibus seguiria até ao ponto combinado para a troca por outro melhor. Lá nave vá… Qual nada. No quilômetro setenta enfumaçou tudo! Deu pane geral e o ônibus resolveu não mais ir a lugar algum! Já eram oito e trinta e estávamos sentados à beira do caminho que não tinha mais fim. Mas não tão ruim assim. Alguém grita:

- Descobri que ali tem uma feijoada sergipana que tá recebendo fogo. Procure D. Edna!

Outro grita:

- Então isto pede uma cerveja.

E o São João ali começou. E o ônibus quebrado?

- Sei lá. A dona da agência (que também era a líder da excursão) está providenciando outro.

Vai feijão, vem cerveja, vai cerveja e já bate pelas dez. No melhor do gosto, no melhor do copo e do garfo o novo ônibus chega.

- Que droga!

Grita a maioria. Os da cerveja.

- Obaaa!

Grita a minoria. Os abstêmios.

O Novo ônibus não era nenhuma brastemp porém merecia alguma confiança, mesmo porque o nosso Pitbicha Ninja era o nosso condutor. Lá nave vá… Qual nada. O Pit não passava de sessentinha por hora. Parecia o Rubinho.
Carros passavam por nós. Ônibus passavam por nós.

Carroças passavam por nós. Todos passavam por nós. Até o próprio Rubinho passou por nós. Mas era uma festa. O São João já havia começado lá naquele feijão, o resto é lucro. Alguém logo descola um conhaque, um licor da farra de ontem, uma batida qualquer.

- Pára no posto! Pára no posto!
- Prá que?
- Prá comprar gelo. A cerveja tá quente!!!

E tome-lhe posto. E tome-lhe posto. E nada de gelo…

Passavam das três e a viagem estava atrasada umas quatro horas. Pit devagarinho, a meninada cantando, o álcool descendo, o amendoim rolando e os velhos cochilando.

Ao anoitecer, mais um acontecimento inusitado: Pit não sabia o caminho. Stress. Oito da noite e não sabíamos por onde ir.

- Eu acho que eu vi uma placa há uns quarenta quilômetros.
- Eu acho que também vi!

Grita outro bêbado.

- Volta Pit!!!

Gritam todos. E Pit volta.

Finalmente achamos a estrada que vai para Piatã. Só faltam noventa e três quilômetros. Pit faz isso rapidinho. No máximo em duas horas. O relógio acusava vinte e duas e trinta quando o airbus do comandante Pit adentrou na cidade. Stress: Onde fica a pousada? Ninguém sabe, ninguém viu. Aliás sabe–se que ficava a nove quilômetros do centro urbano. Mas para que direção?

Solução: Convoca um nativo.

- Ei! Ei! Sabe onde fica a Pousada Serra da Tromba?

Por sorte o nativo sabia e nos conduziu gentilmente até lá. Mais uma aventura: Invadimos uma estradinha de barro mais acidentada do que Beirute. Era uma vereda que, decididamente não caberia um ônibus. Mas o nosso choffeur era ninguém menos do que Pitbitoca Ninja, e botou para feder…até que chegou numa ponte! Sustenta o ônibus? Cabe um ônibus? Mistério. Descem todos para averiguar. A lua cheia ajudou a clarear o caminho da roça. Todos, após passarem pela ponte, levantaram a hipótese de que ela sustentaria sim o nosso ônibus. Julgaram que a soma do peso da consciência de cada um era mais pesada do que o ônibus todo. E lá nave vá…Alguns, desconfiados ou não, preferiram fazer os últimos quinhentos metros a pé. Seguro morreu de velho.

Pronto. Acusava onze horas o meu quartzo quando invadimos a pousada. A Dona não tinha exagerado em nada nas suas características: Uma pousadinha, simples (simplérrima), no meio do nada, sem luz, sem conforto e fazendo um frio desgraçado. À mesa, nos esperando, havia uma grande feijoada preta, salada de couve e arroz. Tudo muito romântico. Tudo à luz de velas. Tudo muito grosso. Todos muito esfomeado.

Finda a janta, quase meia-noite, os jovens resolveram ir para a cidade, atrás de folia e sanfona enquanto os maduros esticaram o esqueleto por lá mesmo. Nestes três dias, Pit fez o trajeto pousada/Big Brother/pousada umas quinze vezes, e errou pelo menos umas seis. Ele errava muito.

A casa do Big Brother era grande e fria. Haja colchão e haja menino para dormir neles. Na cidade, o forró tava comendo solto. Havia dois palcos que se revezavam na animação. Realmente valeu a pena passar dezoito horas viajando. A cidade se enfeitou e ofereceu receptividade para todos que por lá chegaram, com bebidas e comidas típicas, bandeirolas, barraquinhas de palha e tudo o possível para uma festa nestas cores. Os meninos levaram até de manhã. Os maduros dormiram.

Na manhã seguinte, na pousada, o café da manhã foi servido por volta das nove horas. Todos com um pouco de frio e com cara de ressaca da viagem. Na mesa, poucas e secas coisas: Pães caseiros (com a mesma estrutura da casa), poucas frutas e café nativo, cultivado e moído na própria fazenda da pousada. Melaço, queijo coalho e ovos fritos. Havia também chimango e avoador. Básico.

Lá pelas onze, iniciou-se os trabalhos etílicos com vinho branco, trazido por Maverick (namorado de Graça), e com conhaque, gentilmente ofertado por Abarê. Os mais inveterados (Telma, Augusta e Nana) tomaram cerveja mesmo, só prá variar. E ficamos neste rame-rame até a hora do almoço. Pareciam uns jacarés secando ao sol. Quanto à turma de Zeca Pedro Bial (Nerds+adolescentes+sobrinha-que-estava-de-titio+mais jovens), preferiu investigar uma cachoeirinha que fica pelas redondezas. Na realidade foram cagar na moita.

Vencida esta tarde houve o apronto para a grande noite, onde todos iriam para a cidade para forrozar. E assim foi feito. O ônibus saiu com quase todos para a cidade. Na chegada nos espalhamos em barracas, em forrós e em caminhadas pelo povo. Comemos e bebemos. Dançamos e sorrimos. Como sempre, os mais velhos preferiram voltar para a pousada enquanto os mais jovens preferiram ficar na festa para se divertir e, quem sabe, namorar.

Na pousada havia um trio nordestino tocando para todos os hóspedes (no caso, nós), e para os vizinhos da fazenda. Não foi muito animado não, pois véio é véio, né?! E a fogueira deles estava meio baixa. Mesmo assim foi luxo só ter um trio só prá gente. Dizem que forrozaram até lá pelas duas. Eu não vi pois às doze já tava arriado de tanto quentão lá da cidade. E também, o que é mais importante, achei muito agradável e muito especial dormir ao som as sanfona. Foi muito legal.

A segunda manhã começou de forma inusitada pois várias foram as pessoas que preferiram regar e adubar o cafezal ao invés de utilizarem civilizadamente os sanitários da casa. Eu mesmo fui um deles. Ah! É tão gostoso…aquele friozinho matinal na bunda…e a pousada tem uma proposta tão ecológica…

Os meninos chegaram por volta das dez parecendo uma nuvem de gafanhotos esfomeada. Eles comem tudo o que vêem pela frente. Né brinquedo não. Os mais velhos ainda preferiram tomar sua cervejinha enquanto todos já se arrumavam para voltar para Salvador. Quinze e quinze saímos dando adeus à pousada. Na vereda, de volta, desce todo mundo do ônibus: Pit disse que não conseguiria subir a ladeira de barro com tanta gente (sic). E descem todos para esvaziar o ônibus. Que cena! Já no plano, subimos todos e pegamos o asfalto para então seguirmos viagem. Paramos no posto de gasolina para completar o óleo do motor do ônibus e partimos. Essa foi a grande besteira de Pit: Saiu para o lado errado. O que é pior, só foi descobrir isso lá pelas oito da noite. E aí pára pra perguntar ali e acolá. De posto em posto. De luz em luz. Lá pelas nove da noite, Pit anuncia:

- A gasolina não vai dar!!!

Pára no posto, faz uma vaquinha e abastece o carro.

- Leva motô!

A fome bate geral e pára pra comer ainda em Morro do Chapéu, tipo onze horas. Piatã para Salvador distam 530 quilômetros. Morro do Chapéu para salvador distam 460 quilômetros. Já tínhamos gasto oito horas de viagem e ainda faltavam quatrocentos e sessenta quilômetros! Lá nave vá…

Acordei às quatro horas e quarenta e cinco minutos, perto de Candeias. Soube que algumas pessoas se revezaram na cabine do buzu para não deixar Pit dormir. O coitado estava “tentando” dirigir a umas quatorze horas ininterruptas e ainda faltava quase uma para o nosso destino final. Se Pit já não corria sem sono, imagine assonorentado. Por fim, nossa viagem acabou às cinco e quarenta e cinco da manhã, no Imbuí. Daí nunca mais ouvimos falar em PitBitoca Ninja. E a pergunta que não quis calar: QUANDO SERÁ A PRÓXIMA?

Ruy Vídero
Julho.02

Atenção senhores passageiros:
Se querem incluir algo nesta história, por favor mandem-me e-mails. Quem conta um conto aumenta um ponto.

Deixe uma resposta

Você precisa fazer o login para publicar um comentário.