PAPAGAIO 04 – Voyeur

Imagine um bando de não-come-ninguém, sobre um muro, dando nota a toda menina que passa, com plaquinhas e tudo. Umas recebem dez e fius-fius, outras recebem sete e palmas, enquanto outras ainda recebem vaias. Na realidade o que é demonstrado ali é a incapacidade deles em ganhar uma menina. Ao fim da sessão, retiram-se e marcam no dia seguinte para o mesmo entretenimento. Por outro lado, as meninas que foram “analisadas”, até mesmo sem saberem, seguem seu curso normal. Algumas que perceberam talvez se tocaram e correram ou não para os espelhos. Outras ainda deram um retoque no visual no dia seguinte ou desviaram o caminho. A que recebeu dez, toda orgulhosa, passará sempre à frente da banca examinadora para ser avaliada de novo, e de novo se envaidecer. Porém, como a banca não é especialista possa ser que a mesma que recebeu dez outrora, agora com um novo penteado ou novas roupas, receba um singelo oito. E aí? Frustração!

Imagine um bando de engravatados, lá em Avara, com o mapa múndi nas mãos dando fiu-fiu ou vaias para este ou aquele país, como se fossem os donos do mundo: Ao Brasil, que está queimando a Amazônia, vamos dar um seis pois, por outro lado, está conseguindo cumprir os acordos com o FMI. Para a Argentina vamos dar um três com possibilidades de descer para dois, pois tá quase quebrada. Para o Chile vamos dar um oito com tendência para sete. E dez, não vai para ninguém? Sim, vai para o México por exemplo, que assimilou muito bem a economia interna com o seu rico vizinho (deles), mesmo que para isso tenha negociado baixa de salários contra alta de tecnologias. E por aí vão os yuppies dando destino ao mundo.

Mas quem os ouve? As garotas/países julgados ganham estampas em jornais ao invés de serem os ouvidos por trás dos muros. Este pessoal tem um poder de mídia incrível, mesmo porque os donos da mídia também um dia já fizeram parte deste mesmo muro.

Do outro lado do bairro existe vida inteligente. Aliás é para lá que estas meninas avaliadas estão se dirigindo. O pessoal do outro lado nem sabe que elas estão sendo avaliadas. Chegando lá encontram namorados, se divertem e se casam. Trabalham e realizam negócios com tudo e com todos. Os yuppies fingem não ver que a Europa rica faz parcerias com o Brasil. Que a China aberta flerta o cone sul e sua riqueza alimentícia. Que o oriente médio há muito é o maior comprador de carros brasileiro, que por sua vez é o sétimo fabricante do mundo. Que a EMBRAER exporta para a França e para o próprio Estados Unidos. Os yuppies se fazem de cegos pois precisam levantar placas de análise para seu próprio povo, para dizer a eles que está tudo bem: que a Johnson & Johnson não faz remédio danoso; que a bolsa de NY tem lisura; que as empresas de comunicação não driblam o fisco e que todos os balanços bancários são honestos, provando a transparência da melhor e maior democracia do mundo. A única que dá certo (sic).

Após as denúncias de falcatruas, que teve seu start na queda das torres, a economia americana teve de matar algum boi de piranha para salvar o seu rebanho, e este boi começou com a Argentina e agora quer se espalhar por toda a América do Sul. A Europa fortalecida com o Euro, a Rússia respirando, o Cone Sul mostrando suas unhas. Tudo isto assusta Tio Sam que preferiu tomar suas providências internas justificando nas previdências externas: buscar o culpado. Já foram os soviéticos, Sadam, Laden e agora, los hermanos argentinos. Como ainda é pouco e não resolve o problema de imagem e bolsa deles, então chamam mais culpados para a roda. No caso o Brasil. O risco Brasil não existe. Não existe risco país em lugar algum a não ser nas mesas engravatadas dos escritórios de Wall Street, que se julgam e tentam ser os donos do mundo. Pela sua aerodinâmica, seu peso do corpo, pelo tamanho da asa e a velocidade dos seus movimentos o zangão não poderia voar. No entanto ele não sabe disso. Ele simplesmente bate suas asas e voa. Anda, brasileiro, acorde e vá trabalhar!

Ruy Vídero

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