PAPAGAIO 01 – Algo sobre cidadania ou um olhar sobre si

“Sabe lá o que é não ter e ter que ter prá dar (…)”

Façamos de conta que somos uma sociedade alternativa e que todos os HOMENS sejam iguais. Então, como seríamos? Seríamos iguais em que? A felicidade é um substantivo relativo ou um adjetivo imaginário que ninguém o vê, só o percebe? Mesmo assim percebe em si diferente das outras percepções que fazem para si. A felicidade passa a ser um estado de espírito, geralmente passageiro, que o indivíduo usufrui. Por outro lado muito se pode contribuir para a construção da felicidade de alguém, ou até coletiva, mesmo que seja por um lapso de tempo, por uma noite ou um dia. Por outro lado, a desconstrução desta também pode ser coletiva.

É possível se transmitir felicidade sem a contê-la? É exeqüível maquiar o ideal de felicidade mesmo que o maquiador não dispunha deste artifício, ou a felicidade se realiza quando se torna possível a felicidade de outrem, mesmo que para isso dispense-se a sua? Poder-se-ia dizer que o ideal de felicidade se materializa quando alguém que estimamos se sinta feliz, aí também neste momento estaríamos felizes.

Existe o fazedor profissional de felicidades?

As empresas do mundo todo, preocupadas que estão com a mundialização da economia, estão investindo cada vez mais na pasta de recursos humanos, onde o mais requisitado é o QE. Fortunas estão sendo investidas no bem estar social dos funcionários. Descobriram tardiamente que o HOMEM é HOMEM. Que o HOMEM não é uma máquina. Que, apesar de usina individual produtiva, também é animal que respira, sente, cansa e, pasmem, pensa!!!
Foi descoberto que o trabalhador produz mais se melhor tratado. Que defende melhor o patrimônio da empresa (por extensão, o seu) se deixá-lo participar das decisões ou planejamentos. Que confia mais nos superiores se estes agirem e atuarem com transparência, com fluência de informações e socialização dos resultados e sacrifícios. Então é corrente que a proteção maior contra a concorrência, mesmo que internacional, é o seu corpo de funcionários/colaboradores. O ser humano passa a ser o maior patrimônio e ferramenta da organização comercial, industrial ou primária.

Em se tratando de empresas que não lidam com qualquer produto que tenha valor comercial (ou que se possa comercializar), o HOMEM ganha importância em proporções gigantescas, sendo gigantesco também a necessidade de cuidar deste HOMEM já que ele é “o tudo” nesta corporação. Se um professor em sala de aula, um enfermeiro com seus enfermos ou comissários de menores com seus procedimentos. O que se falar de outras do terceiro setor? Qual a importância do homem no Greenpeace, por exemplo? Nas instituições não governamentais então, qual o papel do colaborador, do profissional, do voluntário ou da equipe da direção? Nestes casos se trabalha com a vida e a vida pede passagem. E para dar passagem precisa de pessoas, de HOMENS que estejam de bem com a vida ou, no mínimo, que tenham esperança de conquistá-la, e para conquistá-la ou para orientar aos que precisam para tal, têm de estar imbuídos de todas as benesses aqui ditas quando na impressão sobre uma organização.

Para se passar o bem tem de ter a noção e preferivelmente a vivência dele. Para se agir com transparência é preciso ser tratado assim. Para se dar amor é preciso recebê-lo. Para informar é preciso ser informado. Para viver é preciso que haja a vida.

Voltando à economia, é sabido que o mundo está em crise e ninguém escapa dela, seja cada um em sua dimensão, em sua esfera. Paradoxalmente é neste momento que uma sociedade cresce pois aprende a viver e a se relacionar em tempos ruins, onde saberá aproveitar racionalmente quando os tempos melhorarem. Tem economista que defende que todos ganham com a crise. Só que tem crises e crises. Nosso Estado passa por crise de identidade, crise econômica, crise política, crise educacional etc. Tudo isto reflete em crise de valor ou consegue-se apurá-lo mesmo diante de tanta turbulência? E as instituições que defendem a ética política estão prontas para aplicá-las ou estão repetindo o mesmo erro das acusadas por elas? O que se vê são práticas comuns à qualquer empresa capitalista moderna (aquelas selvagens) em que vêm o lucro acima de qualquer coisa (mesmo lucro de imagens), acima de qualquer circunstância ou valor. As instituições repetem falhas que abominam em seus discursos. Seja falta de transparência, seja atrasos de pagamentos ou negação de direitos conquistados. Talvez seja por necessidade maior, tipo falta de sustentação financeira, por falta de injeção de recursos. Talvez seja por falta de auto-sustentação pois não são empresas mercantis, ou talvez por problemas externos à instituição. Tudo isto justifica. O que não justifica é a não transparência, a falta de participação de todos no problema do grupo. A falta de transparência mina a caminhada, pois gera desconfiança e mal estar. O que não se entende é o não tratamento de HOMEM para pessoas que formam HOMENS. Onde está o exemplo?

Concluindo, a cidadania é a prática de viver coletivamente onde todos, todos, são responsáveis por todos e cada um é responsável também por si mesmo. O verdadeiro cidadão tem deveres sociais que extrapolam o seu direito individual quando este se confronta com o coletivo. O verdadeiro cidadão informa, pois informar é um ato de cidadania.

Ruy Vídero Caldas
05 novembro 1999

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